natal 2009
RECEITA DE NATAL = FELICIDADE p/ Amauri Alonso Ielo Coloque em segundo plano o natal do Papai Noel, dos presentes, da mesa farta, do peru, do vinho, da cerveja, das nozes, das castanhas e de tudo que a parte perversa do capitalismo fez prevalecer para desvirtuá-lo. Saiba que, se o natal estiver impregnado pela idéia de consumo, seu lar será ilusório recôndito. Muros e paredes nunca escondem a desgraça material lá fora, nem obsta que ignara futilidade ao lar adentre. É que, na mente, sem barreiras, há um cantinho solidário que coteja riquezas materiais e fará indagar se a fome zerou ou se, pelo menos no natal, toda criança receberá um brinquedo. Saiba onde colocar a felicidade e não dê razão ao taciturno Pessoa: O eterno sonho d’alma desterrada Que a traz ansiosa e embevecida É uma hora feliz sempre adiada E que não chega nunca em toda vida Essa felicidade que supomos Árvore milagrosa que sonhamos Toda arreada de dourados pomos Existe sim, mas nunca a encontramos Porque ela está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nos estamos Nem se conforte com pretextos extraídos da obra de Daniel Goleman, “Mentiras Essenciais Verdades Simples”, a comprovar que é hábito contumaz do homem tergiversar a mente de realidade funesta para seu bem-estar psíquico. Rejeite a cultura (ou a ignorância da unanimidade burra) nacional ditada pela mídia, onde os donos do poder de comunicação saciam a ambição dos capitalistas e contam com o tácito apoio dos socialistas ateus. Ao lado da indiferença destes, o aniversário de Jesus é só um meio de lucro daqueles. E os símbolos do natal passam a ser ícones: Papai Noel, pinheirinhos e outras figuras apelativas e marcantes, sem qualquer conotação com chamamentos espirituais que emanam da Sagrada Imagem do Menino Jesus. Desfrute da sagrada festa com seus entes queridos e deixe fluir sentimentos puros, ligados unicamente aos verdadeiros valores do natal, praticando o amor que o Filho de Deus nos ensinou em seu testemunho de vida. Entenda que não é a ocasião só para lembrar do bolso vazio de seus irmãos, mas de se preocupar com carências d´alma de todos nós. Relegue o constrangimento das injustiças sociais para motivar a luta pelo ideal do justo, durante o ano inteiro. Concentre-se, por ora, em Jesus Menino. É natal. Festa de oração e de graças, exultando alegria, carinho, amizade, solidariedade, tudo de bom e sem estimativa econômica. O restante, com preço em moeda corrente, é o resto oco, vazio, prescindível estorvo ao júbilo maior da felicidade espiritual, única que nos completa. Então, com verdade essencial, um sentimento divino de paz estará no lugar certo: dentro de nós.... para um FELIZ NATAL.
Escrito por Amauri às 15h02
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gordinhas!
“Dendém, Tchico-Tchi, Pu Pu! Gordinhas! Gordinhas!” p/ Amauri Alonso Ielo A verdade sempre desconfia. A memória, às vezes, trai. Onde a ficção? Onde a realidade? Lembro-me que estudei no Colégio dos Irmãos Maristas, em Poços de Caldas. Interno, premiou-me de alforria o esporte. Corria solto o ano de 1955. Aos 14 anos de idade, comprido e desajeitado, integrava a delegação da cidade que iria disputar os Jogos Abertos do Interior. Verdadeira olimpíada onde despontavam os grandes astros do esporte brasileiro. No trenzinho da Mogiana, plagiamos a Maria Fumaça e entoamos o grito de guerra: “Dendém, Tchico-Tchi, Pu Pu! Pó Pó Pódecarrrda!” Também, com menos decibéis, na chegada à estação da Paulista em Bauru, repleta de alegria, até a decepção no local onde nos hospedariam. Alojamento em grupo escolar. Dormitório improvisado em sala de aula lotada de camas, com ínfimo espaço entre elas para transitar e quase nenhum para colocar bagagens. Banheiro ou, precisamente, amplo salão azulejado continha pias, chuveiros e cubículos com latrina. No cotejo, as dependências do internato lembram o Waldorf Astoria. Pouco custa tentar melhor hospedagem. Só a taxa de interurbano no posto telefônico. “Pai! Estou em Bauru nos jogos abertos, com pouco dinheiro e não dá para ficar no alojamento dos atletas. É questão de higiene.” “Higiene ou frescura? Vou providenciar. O Delegado Regional é meu colega da USP.” Dia seguinte, pela manhã, estávamos treinando e o chefe da delegação interrompeu-nos para me chamar. “O que você andou aprontando, moleque? Tem um soldado da Força Pública à sua procura. Falei para ele esperar na portaria. É grave?” “Não aprontei nada. Vou lá! Eu sei do que se trata.” E adivinhei – “posso me alojar em hotel?” O soldado desconfiou de minha identidade. Certamente, quando lhe disseram para procurar o jogador Amauri na área de treinamento, ele imaginava que fosse o craque da seleção brasileira de basquete. Tinha em uma das mãos a “kodak”. Na outra, uma criança sorridente. Seu filho, talvez. Topou Amauri qualquer, sem Passos. Parado à sua frente. “É você mesmo? Amauri? Pensei que fosse... Nada. Vou cumprir as ordens do Dr. Chicão. Tenho a autorização para você se hospedar no Hotel Rex e um envelope com dinheiro. Quer conferir?” No conforto do hotel, com dinheiro no bolso e habeas corpus preventivo, a sonolência feliz resgatou a imagem da namorada paulistana, Sofia. Ela, na arquibancada, assiste ao jogo e me aplaude. Faço o gol. Desenho coração no ar. Subo no alambrado, apontando para ela. Depois, ela conhecerá esta luxuosa suíte, beberemos um hifi, etc. principalmente, etc.! “Qual nada! Por primeiro, Sofia está em São Paulo e nem sabe que vou jogar em Bauru. Em segundo, beque, grosso e sem as manhas de atacante, não faz gol. Mesmo se eu fosse para área deles num corner e arrematasse de cabeça sem defesa e ela estivesse presente, a Sofia gordinha jamais entraria comigo em hotel antes de justas núpcias”. Na época, havia apenas duas categorias de mulheres. Como diziam: as “de família” e as “de zona”. Com as primeiras, sexo só depois do casamento e com as outras mediante grana. Nestas, exceção à sorte de lhes despertar amor – (somente no Brasil as profissionais davam por amor). Naquelas, sem exceção, virgindade indeclinável. Excepcionalmente, descobri tercius genus na manhã seguinte. A arrumadeira do hotel bateu à porta da suíte. Era a gordinha simpática que me recebera na tarde anterior para indicar, na suíte, como usar a mordomia. “Esse liga o ar refrigerado, aqui isso, ali aquilo”. Entrementes, olhava suas curvas com ar de admiração e sorriso maroto, enquanto ela fingia não perceber, oferecendo, porém, boas brechas para observação. Quase se retirou, “ia fazer a arrumação. Pensei que o senhor já tivesse saído!” “Não vá. Pode arrumar enquanto eu termino de ler.” Daí, lobriguei por generosos ângulos. Sem sutiã! - fato raríssimo então. Abriu-se, ou foi aberto, botão superior do uniforme de finas listras alvirubras. Curvas dos seios apareciam e, em certas posições, auréolas rosadas, realçando, em dégradé, biquinhos beges, pontudos. “O que o senhor está olhando?” - Será que o livro estava de cabeça para baixo? Meus olhos, certamente, se agitavam bem acima das páginas. “Estava mais pensando e torcendo do que olhando! Torcia para você desabotoar mais um! Mais um! Mais um! O do meio. Todos eles!” Felicidade completa. Quebrei minha invencibilidade, a dela era complacente ou já era. Ela tirou tudo! O enorme carinho com as gordinhas de carne, e pouco osso, eu não conseguia dar às de couro. “Nada de preservar o preparo físico para o jogo. Vale mais a leveza da mente.” No jogo, Só entoamos o tal “dendém de pó de carda” no início do primeiro tempo. Fomos arrasados. Perdemos por larga margem. O time juvenil de Bauru era excelente e o nosso nunca jogou tão mal. Quando o placar assinalava 8 a 1, o treinador bauruense olhou para um jovem mirradinho no banco de reservas, provavelmente da minha idade e comentou com o auxiliar “ele nem precisa entrar no jogo de hoje, está muito fácil”. Observei o garotinho mirrado. Abaixo do topetinho armado, destacavam-se olhos atentos no campo de jogo. Duas jabuticabas, alvinegras e gordinhas, querendo saltar das pálpebras para competir com a gordinha de couro que rolava no gramado em impossível busca de monopolização da atenção geral. Impossível? Três anos depois, extemporâneas e agudas buzinadas de fusca tentam reiniciar a comemoração da conquista da nossa primeira copa do mundo. Cessa a madrugada mais quieta, na qual se abriu o filme do dendém. Some da mente, sem exibir o “the end”. À noite, a TV mostra os gols e comemorações. Belini ergue a copa. Jabuticabas gordinhas, derramando seu néctar nos ombros do Gilmar, monopolizam as atenções. “É ele! Eu o vi! Pena que ele não entrou no jogo. Não foi necessário, nosso time maltratava a gordinha. Sim, é ele a razão da voz do “dendém” a berrar nos meus ouvidos e inaugurar o filme no sonho”. A imagem forte jamais me enganaria. As mesmas jabuticabas, saltadas, grandes, vivas, ágeis, vibrantes. Eram as pequenas gordinhas que queriam pular ao gramado porque, ali e por ele, como a de couro no jogo, só receberiam muito carinho.
Escrito por Amauri às 05h42
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Via Imigrantes: usar acostamento ou mata atlântica
Deficientes físicos, gestantes, idosos, lex? ora lex! p/ Amauri Alonso Ielo Certa feita, hospedado no Rancho de Pesca de um parente, em Mato Grosso, hoje do Sul, perguntei ao anfitrião onde era o banheiro. “Banho no rio, número um e número dois, da porta da cozinha até a divisa com o Paraguai!” Se alguém, mesmo deficiente, gestante ou idoso, de viagem para São Paulo, pela Rodovia Imigrantes, me indagar onde é o banheiro, direi: “do acostamento até o meio da mata atlântica”. O único estabelecimento que “quebrava o galho” dos aflitos necessitados era o tal de Racho da Pamonha, atualmente fechado. Apesar de óbvia, é incrível e intolerável a deficiência mental ou falta de perceptibilidade das autoridades (in)competentes, incluídas nestas os dirigentes da DERSA, ECOVIAS ou entidades que as valham. Para a inteligência deles só os que saem de São Paulo em direção à baixada têm necessidades fisiológicas. Esses privilegiados usam os banheiros do Frango Assado, Mc Dolnald´s etc. “Já sei! É porque só se paga pedágio nessa direção!” Talvez o político agraciado com donativos, não contabilizados para campanha eleitoral, aquele mesmo que pretendia revogar a lei da oferta e da procura, venha a legislar para proteger a concessionária, proibindo que os usuários da rodovia tenham vontade de...., deixa pra lá.... Enquanto se estuda a viabilidade de se controlar, por leis encomendadas, as necessidades fisiológicas dos cidadãos, é bom ficarmos quietinhos, caso contrário eles colocam pedágio na subida da Imigrantes para nos dar o direito de livrarmos de desejos angustiantes, sem ter de usar o acostamento ou conspurcar a mata atlântica. Saindo da Imigrantes, sem querer imaginar a figura grotesca, não fora extremamente humilhante, de deficiente físico ou gestante, de cócoras no acostamento ou se embrenhando na mata, a verdade é que, no Brasil ideal, das maravilhosas proposições hipotéticas da Carta Magna e das Leis, estão bem cuidados e respeitados os deficientes, gestantes, idosos ou pessoas com problemas de saúde. Mas, basta reparar um pouco no que ocorre diuturnamente em estacionamentos, caixas de supermercados, transporte coletivo etc., para ter a certeza que o Brasil real é completamente diferente fora dos gabinetes dos políticos, das autoridades e até dos gerentes de supermercados. Diria o furão: “Se os que mandam neste país não respeitam a lei, por que eu vou respeitar e deixar de furar filas, estacionar onde é melhor para mim?” No tempo da brilhantina, se enfatizava “dura lex, sed lex”. Agora, como nunca se falou tanto neste país: “a lei? ora, a lei!?”
Escrito por Amauri às 13h01
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Teria o Juiz praticado crime?
Teria o Juiz praticado crime, impunemente? - Amauri Alonso Ielo Calma, leitor. Seria eu mesmo o réu e os fatos ocorreram nos idos de 1978, apagados, portanto, pela extinção da pretensão punitiva estatal. A “Tribuna”, antigo e prestigiado jornal da baixada santista, cobriu a festa no Teatro Coliseu “para os 132 novos bacharéis em Direito integrantes da 25ª turma da Faculdade Católica de Direito de Santos”. Mas, a manchete, destaque e quase a totalidade da matéria referiam-se a única aluna. Na edição de 29 de janeiro de 1982, o título: “Jovem cega realiza grande sonho: já é bacharela em Direito”. No corpo do texto lia-se: “Dentre eles, havia uma bacharelanda cega Lilian Miranda dos Santos, de 26 anos. No auge da alegria justificada, ela tributava o seu êxito à dedicação dos colegas, dos amigos e dos professores, especialmente um: Amauri Alonso Ielo, juiz de Direito no Forum de Santos. ‘Ele foi incrível. Tudo começou com uma bronca. Eu não acertei determinado artigo. Não havia código em braile e eu errei. O professor Ielo insistiu em saber a razão da falha. Falei que eu precisava de um aparelho denominado Optacon, que facilitava a leitura dos códigos dos jornais, livros, revistas, ensejando maior acesso às informações que eu precisava. Além do custo, o aparelho é importado. Com uma dedicação espantosa, o professor Amauri promoveu jantar, passou lista, fez rifa. Reunindo o dinheiro, ele mandou vir o aparelho da Califórnia, Estados Unidos, facilitando de forma extraordinária a minha atividade na Faculdade.” A notícia passou ao largo do enorme pedaço vaidoso de meu ego. Atingiu diretamente a razão que alijava eventual magnanimidade do ato e pegava pesado na parte das responsabilidades inerentes ao exercício da magistratura e dos deveres de cidadão para observância das regras penais. Afinal, as mentes maldosas poderiam imaginar que “mandar vir o aparelho da Califórnia, Estados Unidos” configuraria a prática de crime de contrabando ou de descaminho. Algum fiscal da lei poderia indagar sobre “rifas”, “bolos esportivos” e “bingos” e imaginar contravenção penal. O silêncio das autoridades era a prova viva de impunidade ou valia a idéia: summum jus summa injuria? Creio que não cometi ato politicamente danoso e moralmente imputável. Único e diferente delito poderia ter sido apurado, mas dependeria de representação da vítima. E quem foi a vítima? O prejudicado teria sido um, então, encrenqueiro e chato aluno: José Forte Filho, o diretor deste Jornal do Guarujá. Apropriei-me indevidamente de significativa quantia que a ele pertencia (hoje equivalente a cerca de 5 mil dólares). A omissão do Zé Forte talvez tenha sido um brado surdo e mudo da solidariedade que lhe foi pespegada. Inesquecível seu sorriso amarelo de “concordância”, diante de demorada e calorosa salva de palmas de centenas de alunos, em sua homenagem. Explico. No inicio de estudo do Direito Civil da turma, 1978, dei bronca pública na aluna com total deficiência visual. Estupidez inominável: “Lílian, você é muito burra! Não leu, ao menos, o Código Civil?” As palavras dela me comoveram mais que o brilho de gotas rolando em suas faces, abaixo das lentes verdes, opacas, dos óculos velhos: “Não li, mestre. Não existe Código em braile!” Desembarguei a voz e fui profissional menos estúpido: “Como você quer se formar sem poder ler os Códigos?” Ela foi curta: “Com o Optacon eu poderia ler, mas não posso comprar esse aparelho.” Daí, eu tentei tirar a faca que minha grave ofensa cravara no coração, com temerária promessa: “Nas provas finais você terá o tal de Optacon e não vai ter mais desculpas para erros”. O alívio na promessa era insignificante diante da preocupação em honrá-la. O aparelho era caríssimo! Como poderia comprá-lo se eu tinha dificuldades para mantença de minha própria família, tanto assim que lecionava às noites na Faculdade de Direito e na de Filosofia para compor furos do orçamento. Daí, os meios ilícitos, ditos na reportagem da Tribuna. Só que, alguns dias antes de cumprir a promessa, ainda faltavam aproximadamente de 10 mil dólares para complementar o preço do Optacon. Deus ajudou! Zé Forte e eu havíamos feito, em sociedade, aposta cara em um bolão da Copa do Mundo de 1978 que rolava no Tênis Clube. Ganhamos mais ou menos a quantia que faltava! E sem consultar meu sócio no jogo, diante da angústia da classe e de muitos outros alunos que colaboravam com a Lílian, já desanimados, anunciei: “Amanhã teremos o Optacon, graças ao Zé Forte. Nós ganhamos um bolo esportivo e resolvemos doar tudo para a Lilian”. Hoje, sumiram minhas terríveis lucubrações decorrentes de possível tipificação criminal, em tese, de meus atos. Sobraram as bonitas imagens da realização, alegria e a felicidade da aluna e o inesquecível sorriso amarelo do Zé Forte, este com o som maravilhoso de intensos aplausos a abafar palavrões que, somente muitos anos depois, saíram de seus lábios para homenagear o seu desonesto sócio no bolão.
Escrito por Amauri às 15h26
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Louras
LOURAS, DENTRO E FORA DO SACO DE PAPEL – p/ Amauri Alonso Ielo publ. Jornal Guarujá em 26/09/2009 New York, em fins de julho de 1998. Intactas e soberanas as duas torres do World Trade Center. Por sua vez, Times Square, se já não era, tornou-se a esquina do mundo. Houve um acidente. Desabou parte da lateral de um dos prédios em rua próxima. Nada comparado à tragédia que viria a ocorrer em 11 de setembro de 2001. Mas, a polícia, com todo aparato que podia e bem ao gosto dos americanos, interditou a área por alguns dias, de maneira que não circulavam veículos no leito carroçável do quadrilátero. Daí, se espalhou em toda a praça, com a real liberdade de ir e vir, todo aquele pessoal que costumava se espremer nos passeios, “ualcando” ou não “ualcando”, ao comando dos walk e don’t walk, na luz das esquinas, da esquina famosa. Azo para detalhada observação do povo, na variedade das raças, credos e ideologias, em meio a muitas americanas desajeitadas. O engravatado, em cima de caixote, frente a uma grande loja, pedindo aos consumidores para não comprar. Negros de desconhecida religião, em belíssimas e estranhas indumentárias, falavam alto nada obstante a ajuda de um potente e improvisado sistema de som. Alguns asiáticos, destacando-se seus imprescindíveis equipamentos. Não é novidade! Em qualquer ponto turístico do mundo, atrás de 10 máquinas fotográficas ou de vídeo, há, no mínimo, 9 japoneses. Europeus, realçados por escoceses, com a inseparável lata de cerveja, dentro de um saquinho de papel. Indaga-se: qual a diferença entre a cerveja de lata dentro e a de fora do saquinho? Sem saquinho na rua, é, ou era, ilegal! Que coisa!? As substâncias das coisas não interessam aos juristas americanos. A exegese teleológica do Direito deve ser muito complicada para a cabeçinha deles. Nós, de mundo dito inferior, tomamos uma "loira estupidamente gelada" na garrafa de casco escuro, marrom, de preferência para esvaziar o saco. Certa a teleologia no mero escopo de saborear a substância gostosa. Nem palmeirense dispensa a pedida: a garrafa verde deixa passar a luz, tida como prejudicial ao melhor sabor do néctar. Será que o saquinho existe porque a latinha da budweiser permite a passagem de luminosidade? Ciente dos avanços tecnológicos americanos, não se deve arriscar. Deixa pra lá, a estupidez das loiras daqui, também, nada tem a ver com grau da temperatura da cerveja!!! O pior é que, de 1998 para cá, o consumo e a população de loiras no Brasil cresceram vertiginosamente. Briga publicitária, quanto ao consumo. E sobre a população, a crítica chegou a ponto de dizer que nosso país foi colonizado pela “Loreal”. Enquanto os publicitários ganham os consumidores com inteligência e criatividade, a nova população de loiras considera-nos oligofrênicos optando pela embalagem em detrimento da substância. Será que brasileiras se regem pelo estereótipo americano? Se, todavia, o importante é beleza exterior, o inverso. Elas, as ianques, deveriam copiar a brasileira típica, na beleza maior que Deuslhe deu. E se Caetano falou da deselegância das paulistas, nunca foi a New York no verão bravo para cotejá-las com a “desajeitância” desenfreada das americanas. Imaginava eu ser poeta e, na sina de Neruda pela voz de Skármeta, procurava, desesperadamente, objeto de inspiração na natureza. Como o belo mais belo da natureza é a mulher, na maior potência mundial, senti a impossibilidade de encontrar inspiração. E, para fácil achá-la e lubrificar meus olhos cansados, secos e opacos, recomendei-me qualquer esquina no Brasil e, até mesmo, a da Ipiranga com a avenida São João, ou recomendava-me, antes da pandemia amarela, digo da mente sem oxigênio coberta pela manta oxigenada...
Escrito por Amauri às 12h56
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corinthiano, maloqueiro e sofredor (publ em 04/07/09)
CARTA DE UM LEITOR, CORINTHIANO, MALOQUEIRO E SOFREDOR – p/ Amauri Alonso Ielo Senhor Redator: em 2 de maio de 2009, na página 10, este jornal publicou artigo do respeitado jornalista esportivo Vitor Moran com o título: “Recortem e guardem: o Corinthians ganha o Paulistão e fica nisso em 2009”. Marcio Pinho, o “primeiro-genro” segundo Zé Forte, ficou revoltado e xingou. Creio que a genitora do articulista não tenha sido poupada também por muitos outros corinthianos. Torcedor do timão desde outubro de 1940, nem tanto fanático, não me revoltei nem insultei, apenas vi o genrão cumprir a ordem do laureado jornalista esportivo. Recortou e guardou. Ou melhor: pendurou o artigo no quadro do escritório. Agora, depois da conquista da Copa Brasil, olhei o recorte e me indaguei: por que será que o laureado jornalista esportivo nos mandou guardar seu artigo? Longe de mim qualquer idéia de ofensa ou de retaliação ao Vitor Moran, de quem sou admirador desde a época em que ele integrava umas das melhores equipes esportivas do rádio, a “1.040”. Também não desconfio de sua afirmativa naquele artigo: “neste ano completo 50 anos de profissão e sempre ao meu lado o apanágio da imparcialidade durante todo esse tempo”. Dizem que o articulista é palmeirense. Pensei que fosse santista. Não importa, a verdade é que ele integra a maior torcida do Brasil, a dos “anti-corinthianos”. Aliás, essa imensa torcida do “contra” ou do “anti” deveria ser grata aos corinthianos, pois graças a existência destes, não se constituem em uma “unanimidade burra”. Há dúvidas sobre a medida do “QI” naqueles que se conduzem ao “anti” isso ou “anti” aquilo. Mas, como é certa a desvantagem do desamor e do ódio em cotejo com o bem-querer e com o amor, fica induvidosa a conclusão de que os torcedores do fracasso alheio têm o “QE” (medida da inteligência emocional, diferente do “QI”) muito baixo. Sou leigo, mas poderia explicar a atitude do respeitável articulista e de inúmeros outros “anti-corinthianos” em lições de Daniel Goleman, Jeane Segal e outros psicólogos que escrevem sobre “Inteligência Emocional” e permitem concluir pela falta ou escassez de QE nas pessoas que buscam a infelicidade, o revés, o infortúnio ou o caos de desafetos, rivais ou simples contendores como forma maior de alcançar seu bem-estar psíquico e, muitas vezes, um mórbido prazer. Nesses 68 anos de torcedor, vi o Corinthians ganhar centenas de títulos, no principal, no juvenil, no basquete, no futsal e até no remo, mas nunca ouvi de um rival, de QE baixo, o reconhecimento de que os ganhou com mérito. E os mais pobres de espírito chegam à riqueza de detalhes para macular os títulos corinthianos apontando variadas ressalvas: arbitragem, regulamento, desfalque do adversário, azar, sorte etc. Assisto a tudo isso com serenidade, sem discutir, sem ofender, apenas constatando que a falta ou escassez de QE do pessoal do “contra” ou do “anti”, com atitude mais forte e que exceda a pacífica, natural e respeitosa rivalidade no futebol, pode, mesmo sem intenção, dar azo à agressividade e violência.
Escrito por Amauri às 22h02
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Espaço para o Poeta -
Sempre se tem tempo, enquanto é tempo. "Ter tempo" é questão de preferência (A.A. Ielo) Recado de Mario Quintana A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê, já passaram-se 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado. Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas. Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo; a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará jamais." Mário Quintana
Escrito por Amauri às 12h12
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Em cada cabeça uma sentença
Em cada cabeça uma sentença - p/ Amauri Alonso Ielo (publ. Jornal do Guarujá em 30/05/2009) Tento compreender certas polêmicas a respeito de controvertidas decisões judiciais, procurando situar a análise e a crítica dentro do adequado compartimento filosófico. Lembro da sempre nova e velha academia, em meados dos anos 60. Vejo-me nas arcadas do Largo São Francisco, quando eu cursava o 5º. ano da Faculdade de Direito e recordo os ensinamentos do saudoso professor Miguel Reali, antecedendo a defesa de sua tese (Teoria Tridimensional do Direito – conhecida e respeitada em todo mundo), o qual fazia a divisão da Filosofia em: Teoria Geral do Conhecimento, Teoria Geral dos Valores (Axiologia) e Metafísica. O direito positivo (= normas constitucionais e legais) está adstrito à Teoria Geral do Conhecimento. Sua atuação aos casos concretos (fatos juridicamente relevantes) deve sempre envolver a Axiologia, porque não se pode compreender o direito não dirigido ao justo. As diferenças de preparo (conhecimento do direito) e de distorções na acepção do “justo” são suficientes para justificar a enorme possibilidade de divergência de opiniões sobre cada caso, desde “broncas” de ignaros filósofos de botequins até os pareceres dos mais cultos jurisconsultos, sem necessidade de adentrar no campo da Metafísica ou de indagações sobre a valoração da prova dos fatos aos quais deve incidir o direito. São constantes e rotineiras as divergências de opiniões sobre os mais variados assuntos, especialmente, sobre o “lance polêmico” do ultimo jogo de futebol. Desde que respeitosas e consistentes, as opiniões divergentes são salutares e úteis ao aprimoramento da cultura e da democracia. Quando o assunto diz respeito ao direito, as polêmicas são mais complexas, variadas e veementes. Trabalhei por mais de uma década nos Tribunais de São Paulo. Presenciei inúmeras discussões fortes, algumas com intransigências em distintas posições doutrinárias. Mas nunca houve excesso, desrespeito, desapreço ou influência de preferências e condições pessoais dos magistrados em detrimento do munus público. Mas, acho que isso é coisa do passado. Atualmente nos Pretórios Paulistas e, particularmente, no Supremo Tribunal Federal, um ou outro magistrado de QE (ref. à inteligência emocional) baixo, se excede, como aqueles que se julgam “divinos donos da verdade” e não admitem contrariedade e, pasmem, colocam problemas pessoais afetando o mais importante munus público que deveria exercer com dignidade e isenção, em benefício da coletividade ou da ordem social. Recentemente, constou do noticiário (até mesmo o de domínio público) que “o STF tem sido palco de discussões que às vezes ultrapassam os temas em pauta, revelando diferentes concepções do direito e vieses ideológicos que suscitam antagonismo entre os ministros. Já houve, durante sessões do Supremo, ásperas trocas de palavras entre os ministros...” A transmissão de uma dessas desavenças ocupou grande espaço na mídia, provocando a indignação do povo brasileiro diante de desrespeitoso e lamentável “bate-boca” entre ministros, com inominável e inadequada menção a problemas pessoais dos contendores. As características pessoais, mormente o perfil psicológico, dos julgadores, as diferentes concepções do direito e do justo, a maneira de apreciar a prova e a ideologia política são os mais importantes fautores de divergências na solução de casos que nos parecem iguais. Do ponto de vista da concepção do direito, pode-se inferir que muitos julgadores se colocam em pedestais elevados e camuflando a ignorância pelo chamado direito alternativo, decidem causas com excessiva dose de subjetivismo (este não se confunde com o sentido do ‘justo’ na plana axiológica) e, também em descabido arbítrio, acabam por afrontar normas e princípios comezinhos do Direito Objetivo. Tão abstraídos nas alturas, às vezes, não ponderam sobre os mais elementares postulados do Direito e, pior, não examinam com profundidade os fatos da causa. Outros, atentos apenas à literalidade da lei, cometem inomináveis injustiças (sumum jus, summa injuria). Quanto ao aspecto ideológico pode-se inferir de decisões recentes, (como, v. g., o caso Protógenes e a chamada “Censura Institucional”), que alguns julgadores se enquadram dentre aqueles que dizem ter saudade do regime militar: “eu era feliz e não sabia”, fãs de Salazar, Franco, Tito, Fidel, Pinochet, Mussolini... É comum esses magistrados olvidarem exigências de participação e informação ao cidadão, de respeito ao erário público, de transparência e de outras práticas imprescindíveis ao estado democrático. Indaga o leitor. Que isso tem a ver com Guarujá? Pouco. Ou muito: se estas linhas ajudarem o cidadão a melhor analisar e criticar futuros (e próximos) julgamentos nos procedimentos judiciais contra políticos desta cidade infeliz.
Escrito por Amauri às 12h01
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PÁTRIA MADRASTA VIL
“PÁTRIA MADRASTA VIL” – p/ Amauri Alonso Ielo (publ. Jornal do Guarujá em 18/04/2009) Adepto de Nietzsche e ex-porco-chauvinista da década de 70, neste mesmo jornal poderia ter cometido inominável injustiça se procedesse a julgamento precipitado e preconceituoso, com perfunctório e insensível exame de aparências, e, em imbecil e cômoda generalização, enquadrasse Clarice Zeitel Vianna Silva no conceito que atribui a certas dançarinas sumariamente vestidas em programas de televisão. Reescrevo, a odiosa generalização: “...preocupadas em mostrar o corpo, pululam meninas nos programas de TV. Mas, com exceção de pernas, bundas e peitos, nada mais lhes resta. A glória e sucesso do corpo, das curvas, da cabeleira sueca, verdadeira ou falsa – nunca se sabe...” Agora, mais convencido estou que de nada sei. Ou melhor, algo sei: o quanto pode ser desprezível, infame e ignóbil um julgamento precipitado pelas aparências e preconceituoso. Pois bem. A dançarina do programa “Caldeirão do Huck” e estudante de direito, Clarice Zeitel Vianna Silva de 26 anos, que poderia outrora ser alvo de minha acrimoniosa crítica, é hoje motivo de júbilo e orgulho de todos nós, brasileiros. Competiu ela com outros 50 mil estudantes universitários de todo o mundo e venceu concurso da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) com uma redação sobre ‘Como vencer a pobreza e a desigualdade’, no início de deste ano de 2009. Deu a seu trabalho o título: “PÁTRIA MADRASTA VIL” e em louvável postura analítica e crítica escreveu, com maestria, a realidade do Brasil, vaticinando a melhor e inafastável solução de nossos maiores problemas: mudanças estruturais e revolucionárias. Permito-me transcrever alguns trechos da premiada redação: “...Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência… Exagero de escassez… Contraditórios?? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL. Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade. O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições. Há quem diga que ‘dos filhos deste solo és mãe gentil.’, mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil....” “...É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem! A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão...”. E eu, aplaudindo a dançarina, escuso-me por indagar: será que essa ignorância que doma e paralisa o povo não seria promovida pelos políticos que dela se beneficiam?
Escrito por Amauri às 17h21
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Aqui na Ilha, o mar e quanto mar
Aqui na Ilha, o mar e quanto mar – p/ Amauri Alonso Ielo (publ. no Jornal do Guarujá – 21/02/2009) Domingo de céu amigo e mar revolto. Desfruto do ócio na praia do Pernambuco. Quero, porque quero, poetar. Moças andam na orla, graciosas, sem saber que musas seriam. Hoje não! O mar é o mote. Faltam-me metáforas, porém. Nem a caipirinha da barraca do Rubão ajuda. Desisto. Valho-me do Cadaz, extraído da alma do bacharel, Mário Ripolli, apaixonado por sua Adriana que se fora definitivamente para a Europa: “Vejo o mar solver-se nas pedras, E meu coração repleto, fluindo. Sem rocha para o amor dissipar. As ondas teimosas vão e voltam. Insistem em vencer o penhasco do Leme Onda, nascida insossa, levou o anjo pelo mar brando. Vai bater em outros penedos e se rebelar novamente. Anjo tão doce não volta na onda salgada. Espero em paz, obstinado na esperança de ter esperança.” Não! Melhor lembrar de meu ídolo, um carteiro, quase xará, propositadamente, do bacharel. Mario Ruopollo, expoente da maravilhosa obra cinematográfica Il Postino, ou Mario Jimenez, no livro de Antonio Skarmeta que a inspirou. O carteiro, amado em todo o mundo em razão de sua pureza e extrema sensibilidade, confessara que ficou enjoado no balanço do mar que o poema, dito por Pablo Neruda, lhe fez experimentar: “Aqui na Ilha, o mar e quanto mar. Sai de si mesmo a cada momento. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode sossegar. Me chamo mar, repete se atirando contra uma pedra sem convencê-la. E então, com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beija-a, umedece-a e golpeia-se o peito repetindo seu nome.” Para bem compreender, arredam-se da mente os efeitos do balanço do mar no corpo e relevam-se, muito mais, os fluidos mágicos do belo na alma. E, então, o certo é que o carteiro não estaria com náuseas, enjoado, mas, sim, extasiado, arrebatado, sonhando, apaixonando-se pelo mundo e adentrando a um status de cândida felicidade. Pouco importa se no Rio de Janeiro, na Pérola do Atlântico, na Ilha do Pacífico ou na vila de pescadores do Mediterrâneo. Os brados e movimentos do mar, agitados, nervosos, paradoxalmente, estão a nos tranqüilizar, nos confortar e nos dizer que o amor, a saudade, a esperança e os outros nobres sentimentos podem ser avivados quando enxergamos o belo da natureza pelos olhos do coração. Aprecia-se o belo, sem covardia! Não há fuga da realidade racional, tão aziaga: corrupção, impunidade, incompetência, pobreza, ignorância, violência, injustiças. Convive-se, indignado, com essas mazelas, deixando sempre aberta a janela do coração para adentrar o belo e com ele a paz e forças para, com a alma leve, labutar no devaneio de um mundo melhor.
Escrito por Amauri às 18h13
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Milagre
Aqui, na Ilha, um milagre ambulante e outro latente... (publ. no Jornal do Guarujá – 27/09/2008)
- Mas, doutor, não há possibilidade dos rins voltarem a funcionar?
- Os exames não falham, principalmente, a biópsia. Nem milagre te salva, só o transplante. O senhor tem doador vivo ou vai entrar na fila?
- Parentes e amigos se ofereceram. Não aceito porque se acontecer algo com eles eu preferiria estar morto. Obrigado, eu vou continuar com as hemodiálises e, enquanto isso, procurar o Médico dos médicos....
O nefrologista, tido como um dos melhores do Brasil, não entendeu. Despediu-se com cortesia e um olhar misto de comiseração e perplexidade.
O pior do tratamento, além da falta de perspectiva de melhora, foi a mudança para a Capital. Longe da ilha.
Oito meses se passavam. Redobrara a fé em Deus. Pedi. Implorei. Não merecia, mas o Médico dos médicos colocou Sua mão sobre mim. E, agora, voltei. Vivo e livre de diálises.
O milagre ambulante sou eu! Eu mesmo, a prova concreta e insofismável da misericórdia divina.
Grato ao Senhor, posso, com mais freqüência, desfrutar do ócio na praia do Pernambuco. Ler. Poetar. Andar pela orla até cansar. Ver, sentir, respirar o mar, e quanto mar!
Retorno, também, à rua Santo Amaro. O cafezinho com sabor de carinho e amabilidade da Aninha, antes do trabalho. Depois, as loiras do bar do seu Nelson, estupidamente geladas, ao som de papos descontraídos dos amigos, desligado da arrogância e estupidez das falsas loiras dos shopings paulistanos e livre da ignorância de opulentos provedores de outras tantas oxigenadas da Saja.
Preciso fazer minha parte, com mais esmero e dedicação. Trabalhar. Ajudar o próximo ou, pelo menos, os mais próximos. Divulgar idéias, na tentativa de melhorar a vida de todos. Valéria, Sassi e Forte permitem-me publicar crônicas e artigos.
E este é o recomeço. A partir da divulgação da dádiva divina com que fui contemplado, como devem ser todos aqueles que acreditam em Deus. Aqueles que sabem que nada é impossível para Ele e têm fé.
Divulgo, também, minha preferência na política local, inspirado nos ensinamentos de Cristo e com o escopo de melhorar a vida de todos os munícipes. Coloco, acima de tudo, a ética, a decência, a transparência e a dignidade e, assim, minha consciência dirige o voto para a Professora Antonieta.
A certeza da vitória do pessoal da situação será vencida por um milagre nas urnas que salvará o Guarujá, entregando seus destinos às mãos honradas da Professora.
Não tive oportunidade de conhecê-la pessoalmente, todavia ciente de sua história impoluta e da retidão de seu caráter, nela deposito minhas últimas esperanças para que o Guarujá deixe de ser uma cidade sem lei, sem governo e plena de imoralidades. ..... o milagre latente.
Escrito por Amauri às 14h32
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Guarujá, cidade sem lei nem governo
Coragem, expressão de independência – p/ Amauri Alonso Ielo Tenho mais e maiores razões para reafirmar respeito e admiração por nova geração de juízes que honram e dignificam a magistratura paulista na comarca de Guarujá, especialmente por decisões e atitudes corajosas em defesa dos reais interesses do povo desta sofrida cidade, repudiando atuações de nossos políticos à margem da lei e/ou da moralidade. A coragem é, a meu ver, a virtude primordial do magistrado. Decisão destemida que contraria interesses dos poderosos é manifestação explícita de independência do juiz, especialmente quando faz a dimensão axiológica do direito se sobrepor à fria, acomodada e convencional teoria geral do conhecimento. A coragem de sair da ilusória redoma onde se enclausuram empavonados e medrosos magistrados, alheios à realidade e que se importam apenas com os atos formais do processo, deixando sempre a corda arrebentar do lado mais fraco. A coragem de antecipar a tutela jurisdicional, porque sabem que esses políticos se escoram na morosidade da justiça a qual, na prática, acarretará a negação da concretização do direito. Evidentemente, até mesmo nos casos em que é óbvio e incontestável o direito pleiteado, seria mais seguro e confortável, para o magistrado menos audaz, aguardar que todos os recursos sejam esgotados para efetivá-lo. E para o jurisdicionado? A coragem de ser sensível à causa pública e, de acordo com a verdade irrefragável, ainda que nem tanto óbvia dentro dos limites do processo, efetivar rapidamente medidas justas, adequadas e inadiáveis, absolutamente necessárias à preservação do estado de direito e à sobrevivência da ética. A coragem de enfrentar e admitir a realidade, sem hipocrisia para, no aceso motivo de iluminada decisão, afirmar, como o fez o brilhante magistrado, Dr. Guilherme da Costa Manso Vasconcellos: ...“a cidade do Guarujá, terra sem lei nem governo, nas mãos de políticos aproveitadores que só vêm se enriquecendo ao longo da história às custas da ignorância da inculta e mísera população....” Em outras palavras e mesmo por metáforas, há tempos tenho asseverado a mesma idéia do Dr. Guilherme, em entrevistas, crônicas e artigos publicados neste e em outros jornais, no afã de que a população constate essa realidade e que, aprimorando seu conhecimento, venha, no futuro, exercer seus direitos de cidadania para transformá-la a partir do voto até a efetivação de denúncias. De qualquer forma, repedindo lamentos, talvez para o vazio e sem eco, sobre as péssimas condições em que vivemos: ignorância generalizada, caos social, falência das instituições estatais, extermínio da ética, etc, etc, abro pleito de gratidão aos destemidos magistrados do Guarujá que me dão certo lenitivo e renovam esperança de mudanças. Vale, para finalizar, a lição de Couture: “Da dignidade do juiz depende a dignidade do direito. O direito valerá, em um país e em um momento histórico determinados, o que valham os juízes como homens. No dia em que os juízes têm medo, nenhum cidadão pode dormir tranqüilo.”
Escrito por Amauri às 10h55
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Terríveis falhas humanas, na prática, anulam a teoria perfeita - p/ A. Ielo publ. 05/08/2006
À vezes, penso que certos bacharéis, juizes, advogados, promotores públicos, procuradores, transformam o estado democrático de direito numa farsa teatral usada como biombo para tapar seus próprios e escusos interesses, acarretando enormes prejuízos à sociedade. Tais interesses vão desde a avidez material até a busca de doentia satisfação pessoal, na prática de ensoberbecerem-se como seres poderosos e superiores a seus pares. Magistrados e membros do Ministério Público são os que mais usam essa muleta, essencial ao seu bem-estar psíquico.
Objeção absurda, talvez, para quem já se sentiu exteriormente envaidecido como personagem do palco maior das lidas forenses. Fui magistrado, hoje não sei o rótulo que teria antes do “aposentado”: “desembargador”, “ministro” ou “juiz de alçada”? Os títulos variaram de conformidade com as mudanças das leis, embora as funções tenham sido, invariavelmente, as mesmas. Então, o rótulo só serve para empavonar, sendo insignificante para mostrar sua substância. Por isso, quando me perguntam, nos botecos da vida, digo que prefiro o título de preboste, porque o vocábulo pode designar modesto julgador e soa melhor aos ouvidos do poeta rimador.
Além dos ditos vícios - ambição material e psiquismo nefasto - tenho reparado no despreparo, ignorância e desídia de bacharéis em direito que, também, muito colaboram para as lamentáveis condições em que vivemos: caos social, falência das instituições estatais, extermínio da ética, e que deixam rolar solta a violência, paradoxalmente, ao lado da tirania das autoridades.
Na vida acadêmica, aprendi os básicos fundamentos da vida em sociedade a partir da Cidade Antiga de Fustel de Coulanges e passei pelos ensinamentos de Gofredo Telles, Miguel Reale, Ataliba Nogueira, Gama e Silva, Noé Azevedo, Alfredo Buzaide, Washington de Barros Monteiro e outros ilustres mestres das Arcadas. Refutava suas posições políticas, mas me convenci, firmemente, que são imprescindíveis o império da democracia e a regência do estado de direito para a sobrevivência condigna e pacífica dos cidadãos. Parecia tudo simples, o ordenamento jurídico a reger comportamentos e relações do estado com os cidadãos e destes entre si. O comando fundamental: a Constituição. O Direito Público quando houver prevalência do interesse coletivo. O Direito Privado para regular as relações entre particulares. A correta aplicação do ordenamento jurídico aos casos concretos que se subsumam às suas regras ou a elaboração, com isenção, de norma jurídica pelo julgador nos casos omissos. Assim, impregnada a mente na teoria perfeita e esquecidas as terríveis falhas humanas que, na prática, a anulam, entendi que com a atuação do direito a sociedade ficaria tranqüila, próspera, justa, livre.
Quanta ingenuidade! Ensinei isso pela vida toda na Faculdade de Direito. Na magistratura, agia dentro dos ditames do direito e, talvez, que não tenha enxergado a realidade. Cria no princípio da isonomia constitucional: “todos são iguais perante a lei”. Prestigiava a correta atuação do Direito Penal restringindo a liberdade individual do infrator em benefício da segurança e paz coletivas. Imaginava bem compor os conflitos de interesses privados. Será que contribuía para a sociedade mais justa?
E o que vejo depois que sai da redoma em que se colocam os magistrados para preservarem o elevado status e viverem no mundo ilusório de regras e ajustamento a elas dos casos retratados em processos frios, muitas vezes recheados de mentiras? Vejo que o mais importante ainda é a verdade formal contida nos autos, mesmo discrepante da, sabida por outros meios, verdade real e, pior, sinto a cada dia, mais que ontem e que outrora, o exercício despótico do poder, à margem da lei e dos fundamentos básicos do direito. Pouco importa se a decisão é teratológica e injusta. Haverá sempre, de um lado, o advogado aplaudindo o que lhe foi favorável, mesmo que em ostensiva ignomínia. O ignaro aplauso sobrepõe-se à indignação ineficaz do causídico perdedor, normalmente, destituído de coragem ou de conhecimento para reagir à altura.
Mesmo na redoma, eu me preocupava. E, enfaticamente, expus em público, a centenas ou milhares de pessoas quando paraninfo dos formandos de 1989 da Faculdade Católica de Direito de Santos: “o sonho do formando se choca com a realidade de injustiças e desigualdades em que vivemos. Mas, se enriquece com o ideal de torná-la menos injusta. Frustrar-se-á esse ideal, se prevalecer o império do vigente e inadequado ordenamento jurídico e se nosso intricado e lento Poder Judiciário não se despertar de sua notória alheiação".... "algo precisa ser feito para que o bacharel deixe de ser acomodado instrumento do império do estado de direito como farsa acintosa, que farsa será enquanto nos curvarmos à força da minoria que manipula o poder no seu escopo egoísta de revigorar espúrios interesses, em detrimento das necessidades vitais da maioria carente de justiça”...
Tudo piorou, especialmente na parte da ética nas práticas iterativas de desprezo aos interesses mais elevados da sociedade. Aumentou imensamente a delonga na prestação jurisdicional, equivalendo à sua sonegação em alguns casos. Além disso, agravaram-se o desconhecimento jurídico e as agressões ao vernáculo, manifestados por boa parte dos advogados e que passam a ser revelados, também, por magistrados.
Escrito por Amauri às 12h34
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Imaginar... é só imaginar p/ Amauri Ielo publ no Jornal do Guarujá em 03/06/06
Imaginar não custa nada. É livre exercício da mente livre, ainda que, um pouco, se prenda na obra de Saramago ou de outro sábio ou, ainda, nas vicissitudes da vida. Não só por isso a ficção deixa de ser pura e absoluta, mas, especialmente, porque a realidade, digo, a realeza sempre desconfia.
“Majestade, não creio que sejamos um reinado feliz. Aqui, ninguém respeita lei. Assaltos, furtos, homicídios, tráfico e consumo de drogas recordistas. Recorde, também, no número de favelas. Recorde, outrossim, de infectados por insetos que pululam impunemente no reinado. Caos na saúde pública, pelo menos quanto ao atendimento dos carentes. Ignaro e inculto o Ministro da Cultura. O dito melhor condomínio do reino não é condomínio, mas sim loteamento irregular ou clandestino. Barbaridades no trânsito com ciclistas alheios às normas básicas de circulação. Nos supermercados e bancos, caixas para gestantes e idosos são usadas por todos, sem chance para os resguardados na lei. Alagamentos à primeira chuva. Atentados à higiene em barracas, carrinhos, quiosques etc.” “Sim, senhor Primeiro Ministro. Mas, vamos resolver por partes. Primeiro: todos vão cumprir a lei. Diga ao Ministro da Justiça para publicar a LTZ.”
Incrível! Nenhum delito na semana. Parece que aceitaram a proposta do Rei. Ou temem as duríssimas punições do novo sistema penal. Máximo rigor na LTZ, digo, Lei da Tolerância ZERO! Há exatamente sete dias, os órgãos de comunicação da IK, digo, Reinado da Ilha, repetiram, exaustivamente, as novas normas e a fala do Rei: “Isso meus súditos! Obedeçam e, em compensação, propiciarei sobrevivência modesta, mas digna, aos que se tornaram carentes porque deixaram de infringir as leis.”
Dois meses sem notícia de delito. Enorme alegria em Palácio. Conseguimos! Todos obedecem às leis. “Senhor Primeiro Ministro, como nossa receita baseia-se, exclusivamente, no comércio e prestação de serviços aos turistas, pode calcular o décuplo de recursos. Divulgue, amplamente, nos reinados do planalto e do interior, na América, Ásia, África, Europa e até na Oceania: Não há mais crime em Island´s King! Todos aqui virão. Os que fugiram da violência voltarão! Convide os empresários de todo o mundo para investirem neste paraíso. Precisamos de mais hotéis cinco estrelas, casas e apartamentos de luxo! Resorts. Restaurantes. Shoppings. Barcos. Iates. Quadras de tênis. Campos de golfe sofisticados! Cassinos. Cassinos? Já aprovou a lei do jogo?”.
Seis meses sem crime. “Senhor Primeiro Ministro, não seja pessimista, podemos dispensar até o Chefe de Polícia, seus funcionários e toda a tropa. Diminuiremos despesas!”. “Não podemos ficar sem polícia, Majestade. Pelo contrário, temos de aumentar a tropa de choque e até pedir ajuda aos reinados vizinhos. Milhares de súditos estão revoltados. Sem meios de sobrevivência, avisaram que, em movimento pacífico, vão cobrar as promessas de Vossa Majestade! Ademais, a demissão dos funcionários do Ministério da Segurança iria aumentar o número de integrantes da revolta. Há protestos por todos os lados. Além de outros problemas, os empregados das empresas de segurança foram demitidos, os dependentes de drogas lotam o hospital do reino, onde não há pessoal e material suficientes para tratamento e contenção dos surtos de abstinência. Imensa massa de ‘sem teto’ e ‘sem comida’ quer invadir os apartamentos desocupados e saquear supermercados. Enfim, é alarmante a quantidade de pessoas abaixo do nível da miséria as quais, antes, se mantinham com práticas ilegais. Há até um movimento de funcionários públicos e integrantes do primeiro escalão do nosso governo que protestam porque são obrigados a viver só com a remuneração que pagamos.”
Nove meses em estrita obediência às leis. “Majestade. Conseguimos conter a revolta! Os reinados vizinhos ajudaram. Os turistas já se habituaram com os assédios, respeitosos diga-se, dos mendigos. Os carentes estão sobrevivendo com as cestas básicas e compensando suas carências materiais com nobres sentimentos de paz, amor ao próximo e fidelidade ao Rei. Só um probleminha: nenhum centavo foi arrecadado para campanha eleitoral.” “O quê, Senhor Primeiro Ministro? Ninguém pagou?, digo, as empresas não colaboraram?” “Não, Majestade, o ‘caixa dois’ é ilegal e eles temem que o ‘caixa um’ seja divulgado pela imprensa.” “REVOGA a LTZ.”
Escrito por Amauri às 17h48
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Choro Mudo das Mães Cronica publ em 14/MAIO/06
O BRADO MUDO NO DIA DAS MÃES – p/ Amauri Alonso Ielo - cf www.jornaldoguaruja.com.br
Quando o tema é “mãe”, ardem sentimentos. Emergem fortes emoções. Visões me comovem. Alguma confusão se estabelece. Some a razão. As mãos que escrevem estas linhas parecem alheadas do comando mental. Na reflexão de poeta, seriam elas batel à vela oscilando nas ondas e sulcando o mar pelos ditames dos ventos. Na metáfora de Freud, prevaleceria a vontade da cavalgadura que o cavaleiro não consegue controlar.
Não tenho resposta à pergunta que, iterativamente, me faço: o que dizer do ser a quem cabe a divina honra e a grave responsabilidade de nutrir, dar à luz, amamentar, amar, da forma mais linda, suas criaturas à imagem e semelhança do Deus?
Noutro escrito, quis exaurir o tema: mãe é completo poema, perfeita síntese do amor.
Hoje, tenho duas imagens, da guerra do Iraque e a que veio da infância. Outras não me inspiram. Bem menos as da TV, revistas e jornais, feitas pela mídia esperta. São bonitas, agradáveis, porém irreais e indissociadas de interesse econômico a promover venda deste ou daquele produto e a tentar transformar o dia das mães em orgia de consumo.
Prevalecem ditas imagens retidas na mente e no coração, ao longo do tempo, de mães no desempenho de amor divino, em forma pungente. A do Iraque (foto) todo mundo viu, mas é o grito, infelizmente, mudo. A outra só eu vejo. Está em mim vigorosamente impregnada. É a imagem comovente da agonia de mãe que vi, aos meus 9 ou 10 anos de idade, bem no meio do século passado e que, com este, também deveria ter passado. Ficou e ficará para sempre. Criança de 4 ou 5 anos escapa e vai parar nas rodas de um caminhão que transitava pela rua Clélia em São Paulo. E eu, saindo da igreja da Praça Cornélia, senti correr quieta a primeira lágrima mais dolente ao ver o sofrimento da mãe com a criança atropelada ao colo a qual, entre esparsos afagos no que sobrou do rosto e beijos vermelhos, molhados de sangue, tentava recompor o pequeno crânio esfacelado.
Talvez essa imagem tenha causado o que leigos intitulam “trauma de infância” a impedir o controle das mãos que ora escrevem. Não quero saber se justifica acrimônia contida nestas linhas em data festiva dedicada às mães, perdi as mãos para o pulsar do coração.
E, assim, estas linhas contornam comemorações e festas. Em seu amor, notoriamente abnegado, altruísta, as mães compreendem. Ao invés de homenageá-las, suplicam aos homens egoístas mais respeito e dedicação às mães dos que estão sob o seu poder para, se alheios à realidade, não cometerem a desfaçatez de sorrir ao beijar e entregar o presentinho às próprias mães ou às de seus filhos.
Sinto que o brado destas linhas, como o da mãe iraquiana, expressa súplica invisível e muda se pretender modificar os, propositadamente, cegos e surdos aos sofrimentos alheios. Em todo o caso, como no dia das mães ardem sentimentos e emergem, nos seres normais, puras emoções, deixo que arrisquem: coloquem para baixo a fome insaciável do poder maior e mais duradouro, os escusos interesses políticos, a odiosa e impudicícia busca de riquezas materiais, elevem valores nobres e demonstrem amor por suas mães em atitudes destinadas a evitar sofrimento das outras que, diuturnamente, choram a perda dos filhos nas guerras, no Iraque ou em qualquer canto do mundo (ouviu Bush?), na violência urbana (ouviram Lula, Marcio Thomas Bastos e Lembo?) e até nos ataques de insetos da dengue no Guarujá (ouviu Fadid Madi?).......
Escrito por Amauri às 18h05
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